As interferências externas no Brasil e a nova direita

por Augusto Gabriel Colório

  1.    O Golpe como evidência da interferência externa

    Como bem se sabe, a América Latina sempre esteve na esfera de influência dos EUA e, consequentemente, sob sua tutela. Durante a formação do Império norte-americano, no pós-Segunda Guerra, como analisa o Professor Moniz Bandeira[i], os EUA estiveram envolvidos nas alterações políticas latino-americanos, bem como nas suas transformações. Nesse sentido, o professor é claro: “Os golpes de Estado que ocorreram nos mais diversos países da América Latina após a revolução cubana não decorreram de fatores endógenos inerentes aos países da América Latina. Representaram muito mais um fenômeno de política internacional continental, no contexto da Guerra Fria, do que de política nacional argentina, equatoriana, brasileira etc. Eles resultaram, em larga medida, da mutação que os EUA promoveram na estratégia de segurança do hemisfério, redefinindo as ameaças com prioridade para o inimigo interno, com fundamento nas doutrinas de contra insurgência e da civic action […]”

    Por sua vez, no processo mais recente de alteração do cenário político, o golpe deflagrado contra a ex-presidenta Dilma Rousseff expôs transformações sociais e políticas que vinham ocorrendo no Brasil. Como pôde se verificar o campo à direita do espectro político se transformou, e evidenciou o surgimento de uma rede de think tanks e grupos ultraliberais capazes de interferir na política brasileira e que possuem relações extremamente íntimas com grupos internacionais, em sua grande maioria de origem norte-americana. Logo, este texto busca servir de suporte para a discussão das interferências externas no Brasil, nos últimos anos, bem como dar atenção às relações de grupos de interesse estrangeiro com esse novo campo da direita brasileira.  

    Convém começar lembrando que, como nos mostra a plataforma Wikileaks por meio de diversos documentos vazados do governo estadunidense, o Brasil tem sido alvo de interesses e interferências externas por parte de organismos norte-americanos. O intercâmbio de informações e a promiscuidade dos interesses de lideranças do Estado brasileiro e autoridades norte-americanas são sintomas que elucidam esse problema. Em qualquer república séria, essas atividades seriam facilmente definidas como lesa-pátria, haja vista, por exemplo, as acusações contra o Governo Trump e as relações com a Rússia.

    Dois documentos[ii] mostram, por exemplo, as conversas privadas do atual Presidente Michel Temer – naquela época senador – com a embaixada norte-americana, nas quais ele apresentava o PMDB como um partido de divisão política capaz de alterar os resultados da eleição. Ponto de vista importante para o papel que, posteriormente, desempenharia o PMDB no golpe contra a Presidenta Dilma. Além de informar aos estadunidenses sobre a posição do PMDB na política nacional, Temer também discutiu os cenários da eleição presidencial daquele ano e as chances dos principais candidatos: Geraldo Alckmin e Lula. Por meio de outra fonte[iii] do Wikileaks, fica explícito o papel que o Seminário bancado pelos EUA, chamado de Projeto Pontes, desempenhou nas atividades da Operação Lava Jato. Segundo o documento, os agentes estadunidenses influenciaram no treinamento e no estímulo de autoridades, como o Juiz Sérgio Moro, para o combate à corrupção e para a criação de uma força tarefa a fim de combater crimes financeiros. Durante as atividades, ocorreram, por exemplo, simulações de como abordar testemunhas acusadas de crimes de lavagem de dinheiro, dentre outras práticas, que seriam utilizadas nas diversas fases da Operação. Outro documento[iv] que comprova o caráter entreguista de parte dos membros do Estado brasileiro é o telegrama que apresenta José Serra como favorável à política das petroleiras estrangeiras contra o modelo do pré-sal. Mais tarde, após o golpe, Serra teria papel central na aprovação da lei que revogou a obrigatoriedade da participação da Petrobras na exploração do pré-sal.

     Além das relações antinacionais de grupos ligados às instituições brasileiras, cabe destacar também o vínculo de ONGs e think tanks com círculos estrangeiros. Quanto a essa questão, apesar de existirem poucos estudos aprofundados sobre como são formadas essas relações, pode-se traçar vínculos importantes entre esses grupos. A emergência em grande medida desses grupos se dá durante o Governo de Dilma Rousseff, sobretudo durante o processo de impeachment. No entanto, cabe destacar que alguns desses grupos ligados à nova direita surgiram anteriormente a esse período. Influenciados pela lógica do livre mercado, os movimentos políticos da nova direita se aproveitaram das redes sociais para se organizarem e expandirem suas ações. É interessante notar, por outro lado, como esses movimentos possuem ligação com uma organização estrangeira em específico: a Atlas Network.

 

  1.    A Atlas Network como propulsora da nova direita no Brasil

    A Atlas Network foi fundada em 1981 pelo veterano de guerra britânico Anthony Fischer, um dos gurus do pensamento liberal, e é a responsável por fortalecer o surgimento e o crescimento de organizações defensoras do neoliberalismo ao redor do mundo. Após voltar da Segunda Guerra, Fischer começa sua carreira como militante das ideias liberais, inspirado na obra de Friedrich Hayek, e como contraponto às medidas de estado do Governo Trabalhista Britânico, o qual definia como “socialista”. Em 1955, fundou o Instituto de Relações Econômicas (IEA), que serviu de base intelectual para as ideias liberais que seriam aplicadas posteriormente durante o Governo de Margaret Thatcher. Em 1981, ao fundar a Atlas em São Francisco, sua intenção era de “institucionalizar o processo de ajuda na criação de novos think tanks.”. As ideias da Atlas, inspiradas no modelo da IEA, foram reconhecidas e valorizadas pelos expoentes da Teoria Liberal como Milton Friedman, Hayek e Thatcher[v].

    O modelo que a Atlas utiliza para atingir seus objetivos se divide em 3 etapas que podem ser identificadas no próprio website da organização. O primeiro passo é o treinamento de parceiros e programas. Em segundo lugar, é estabelecido o fomento da competição entre os think tanks por meio de prêmios e recompensas. Por fim, acontece a celebração e o reconhecimento, por meio de eventos, das principais organizações que se empenharam em difundir o movimento liberal. Essa forma de atuação, segundo a Atlas, permite que o movimento liberal possa se expandir pelo mundo e possa valorizar os líderes e funcionários de think tanks engajados na causa liberal.

    Quanto ao seu financiamento[vi], a Atlas recebe apoio financeiro, em sua grande maioria, de fundações conservadoras americanas. Como esse processo é feito por diversos dispositivos, torna-se extremamente complexo saber qual é a origem real do dinheiro. No entanto, pode-se citar fundações norte-americanas como a John Templeton Foundation, a Earhart Foundation, a Sarah Scaife Foundation, a Carthage Foundation, a Exxon Mobil, a William H. Donner Foundation, a Chiaroscuro Foundation, a Smith Richardson Foundation, a Donors Trust e a Chase Foundation of Virginia como parceiros importantes na construção do orçamento para as atividades da Atlas Network.

   Na América Latina, a Atlas possui diversos parceiros e é doadora de diversos think tanks conservadores e defensores do livre mercado. Na Argentina, por exemplo, um dos grupos é a Fundação Pensar, que foi incorporada ao Governo de Mauricio Macri, responsável por substituir o Governo de Cristina Kirchner. Em Honduras, uma das parceiras é a Fundação Eleutéra, importante think tank que ganhou espaço no cenário de pós-golpe. Além disso, cabe destacar que a Atlas Network está ligada à oposição na Venezuela. No Brasil, por sua vez, a partir da pesquisa da professora Kátia Baggio, pôde-se compreender, como afirma Hélio Beltrão – criador do instituto em homenagem a Ludwig Von Mises, um dos fundadores do pensamento liberal, que a existência de mais de 30 institutos liberais, defendendo o livre mercado, se deve graças à Atlas Network. As parceiras da Atlas no Brasil, listadas no site, são[vii]: 3 no Rio de Janeiro: Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Instituto Liberal (IL) e Instituto Millenium (Imil); 3 em São Paulo: Instituto de Formação de Líderes (IFL-SP), Instituto Liberal de São Paulo (ILISP) e Instituto Ludwig von Mises Brasil(Mises Brasil); 2 em Belo Horizonte: Estudantes Pela Liberdade (EPL) e Instituto de Formação de Líderes (IFL); 2 em Porto Alegre: Instituto de Estudos Empresariais (IEE) e Instituto Liberdade (IL-RS); e, 1 em VI: Instituto Líderes do Amanhã

    A organização americana Students for Liberty (SFL), parceira da Atlas Network, possui sua versão brasileira chamada de Estudantes Pela Liberdade (EPL) que atua no Brasil desde 2010[viii]. A organização se propõe a defender o libertarianismo – ultraliberalismo – e, para isso, conta com uma rede internacional de estudantes. Sua fundação ocorreu em 2008 na capital dos EUA, Washington D.C. A abordagem central do grupo consiste na diminuição do papel do Estado tanto na gestão da economia, quanto nas pautas sociais. Essa característica diferencia o SFL, ou EPL, das pautas conservadoras tradicionais. A versão brasileira, o EPL, procura atuar na área acadêmica, propondo a discussão, difusão e defesa de ideias do libertarianismo, por entender que as universidades brasileiras sejam hostis a essas ideias devido ao seu caráter esquerdista[ix]. O grupo Estudantes pela Liberdade foi fundado no Brasil, oficialmente, em 2012, durante um evento promovido pela Atlas Network em Petrópolis-RJ, no qual diversos líderes mundiais do libertarianismo estavam presentes.

    As atividades do EPL, no Brasil, foram responsáveis pela criação, a posteriori, do Movimento Brasil Livre (MBL). Como já dito, esses grupos tiraram proveito das manifestações de 2013, mas pelo fato de o EPL receber financiamento da Atlas e do Students for Liberty, por uma questão de imposto de renda nos EUA, eles não poderiam se engajar em atividades políticas. Para poderem participar de ações de caráter político, os membros do EPL criaram o MBL como uma marca para as manifestações. A Atlas reconhece esse feito em seu website: “Many members within the Free Brazil Movement have passed through Atlas Network’s premier training program, the Atlas Leadership Academy, and are now applying what they have learned on the ground where they live and work.”[x]

    As pautas defendidas pelo MBL fazem coro ao discurso de Anthony Fischer, que provavelmente ficaria surpreso com a proporção tomada pelo seu ativismo liberal. Os membros do MBL, além da relativização do papel do Estado, comumente defendida pelos liberais, defendem a retirada deste das funções de desenvolvimento econômico, a redução da carga tributária e a privatização das funções e empresas do governo. No entanto, o MBL ganha notoriedade no cenário nacional a partir das manifestações de 2013 ao reivindicar a derrubada do Governo do PT. O discurso da luta contra a corrupção é o argumento central do MBL para difamar o governo e relacioná-lo ao “inchaço” e à “ineficiência da máquina pública”. Por fim, cabe destacar que os fundadores originais do Movimento Brasil Livre possuem formação universitária nas universidades estadunidenses e passaram pelos treinamentos da Atlas Network.

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  1. As possíveis motivações da interferência externa

    Após discorrermos um pouco a respeito das interferências externas no Brasil e as relações de grupos estrangeiros com a nova direita, cabe agora propor a discussão de quais são as possíveis motivações dessa interferência externa. Entende-se, sobretudo, que ao impedir o avanço brasileiro, os EUA realizam uma nova tentativa de relançar sua hegemonia e impedir uma nova potência de emergir no Sistema Internacional.

    Como evidenciou-se através dos documentos do Wikileaks, as multinacionais internacionais se beneficiaram extremamente do cenário político pós-impeachment insuflado pela nova direita. A alteração das leis de exploração do pré-sal e a desestruturação da Petrobrás permitiram o avanço das petroleiras estrangeiras e a consequente captura dos recursos brasileiros. Desse modo, a Lava Jato desempenhou um papel extremamente conveniente para os interesses estrangeiros ao prejudicar os principais motores da economia brasileira. A influência da nova direita no cenário político pós 2013 resultou no retrocesso da base econômica brasileira que foi construída na Era Vargas. Alguns exemplos ajudam a elucidar como algumas medidas políticas favoreceram grupos estrangeiros. Foi o caso da recente liberação de diversos agrotóxicos que são proibidos na Europa e nos EUA, a qual a Monsanto é favorável.[xi] A Microsoft, por sua vez, foi beneficiada pela troca do software do Governo brasileiro[xii] que abandonou o software livre. Além das já supracitadas vantagens obtidas pelas operadoras internacional de petróleo no Brasil com a derrubada da lei do pre-sal.

    Essa elite do atraso, em conluio com os interesses externos e financiada por grupos estrangeiros, como a Altas Network, é responsável por transformar o Brasil na visão que Washington idealiza: um país produtor de commodities e sem avanço tecnológico e industrial. Como nos lembra Jessé Souza[xiii], ao compararmos o papel desempenhado pela Lava Jato com o modus operandi nos EUA: “o que se fez com a Odebrecht e a Petrobras foi algo que só uma sociedade completamente imbecilizada por uma mídia paga por saqueadores legalizados da riqueza de todos torna possível. Dos americanos pode-se dizer muita coisa, mas, nunca, que foram ou são imbecis que destroem a riqueza nacional e a capacidade produtiva nacional como a Globo e a Lava Jato ajudaram a fazer, passando-se por moralizadores da nação. Nos EUA, não só apenas pessoas são responsabilizadas, mas nunca empresas como um todo, como na Lava Jato. Para não provocar perdas na economia nacional, tudo é resolvido em secret settlements, entre corporações e instâncias de administração.”.

    De forma mais geral, destacam-se como motivações externas para interferir no Brasil: impedir o recente avanço brasileiro no cenário internacional, criado após 2003, e, assim, minar o movimento pela multipolaridade no Sistema Internacional. Com a alteração do poder político brasileiro, conseguiu-se conter os processos de integração regional, como visto, por exemplo, na desintegração da Unasul e na relativização do papel do Mercosul. Da mesma forma, a mudança na política brasileira beneficiou os interesses estrangeiros pois, como demonstra a recente visita do vice-presidente norte-americano ao Brasil, o país passou a adotar uma postura mais agressiva e alinhada aos EUA em face à crise venezuelana. Ademais, ao limitar o Brasil no Sistema Internacional, atinge-se um ator dos BRICS e, consequentemente, uma das alternativas de mudança do status quo internacional. Por fim, é necessário destacar que a partir das mudanças sociais relacionadas ao avanço das redes sociais, das mídias digitais e da manipulação da opinião pública, ocorre também o avanço de interesses de indivíduos específicos não necessariamente alinhados ao das políticas externas dos Estados. Nesse caso, o capital transnacional atua por conta própria e defende seus próprios interesses à revelia de seu país de origem.

            Em suma, do ponto de vista das relações internacionais, o Golpe perpetrado pela nova direita e orquestrado por atores internacionais serviu para minar o processo de avanço brasileiro no sistema internacional. Dessa forma, o Brasil retoma seu caráter periférico, o qual ousou sair durante os períodos Lula e Dilma por meio de uma maior participação internacional. Fica a esperança de que após as eleições possamos retomar o crescimento internacional e o reconhecimento que havíamos adquirido para que possamos sair de nossa posição periférica e possamos caminhar para o mundo multipolar que já chegou para o sistema internacional.

[i] BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz.  A formação do império americano. 2014. Editora: Civilização brasileira.

[ii]https://wikileaks.org/plusd/cables/06SAOPAULO30_a.html https://wikileaks.org/plusd/cables/06SAOPAULO689_a.html

[iii]https://wikileaks.org/plusd/cables/09BRASILIA1282_a.html

[iv]https://jornalggn.com.br/noticia/assange-diz-que-temer-passou-informacoes-estrategicas-do-brasil-para-eua

[v]ATLAS NETWORK. Our Story. Disponível em: https://www.atlasnetwork.org/about/our-story.Acesso em: 20 abr. 2018.

[vi]https://apublica.org/2015/06/a-nova-roupa-da-direita/

[vii]BAGGIO, Kátia Gerab. Conexões ultraliberais nas Américas:o think tank norte-americano Atlas Network e suas vinculações com organizações latino-americanas. Disponível em: http://anphlac.fflch.usp.br/sites/anphlac.fflch.usp.br/files/Katia%20Gerab%20Baggio%20_Anais%20do%20XII%20Encontro%20Internacional%20da%20ANPHLAC.pdf. Acesso em: 11 jun. 2018.

[viii] Cf. Estudantes pela Liberdade. Disponível em: http://www.epl.org.br/sobre/. Acesso em 09 jul. 2018.

[ix] Fonte: Instituto Millenium, 2013. Saiba quem são os Estudantes pela Liberdade (EPL). Disponível em: http://www.institutomillenium.org.br/milleniumtv/saiba-quem-os-estudantes-pela-liberdade-epl/. Acesso em 06 de set. 2017.

[x] https://www.atlasnetwork.org/news/article/students-for-liberty-plays-strong-role-in-free-brazil-movement

[xi] https://www.dw.com/pt-br/em-meio-à-copa-deputados-aprovam-mudança-na-lei-de-agrotóxicos/a-44383674

[xii] https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/11/03/Por-que-o-software-livre-vai-perder-espaço-no-governo-federal

[xiii]  SOUZA, Jessé. A elite do atraso. 2017. Editora: LeYa.