A revolta dos coletes amarelos contra o centrismo cai bem, mas o seu populismo de esquerda não mudará a política francesa…

Tradução para o português por Lucas Alberto Santos e Bruno Inghes do artigo “The yellow vest protesters revolting against centrism mean well – but their left wing populism won’t change French politics” publicado originalmente pelo filósofo, sociólogo, teórico crítico e cientista social esloveno Slavoj Zizek no portal de informação inglês Independent em 17/12/18.

Slavoj Žižek, philosopher
Slavoj Zizek – https://flic.kr/p/e1Sq24

A revolta dos coletes amarelos contra o centrismo cai bem, mas o seu populismo de esquerda não mudará a política francesa…

Por Slavoj Zizek
17 de dezembro de 2018 no Independent.co.uk

As demandas dos manifestantes não são possíveis de serem implementadas dentro do atual sistema capitalista, e eles não são suficientemente ambiciosos para provocar uma mudança na direção de um sistema mais igualitário, nem tampouco, ecologicamente sustentável.


Os protestos dos coletes amarelos (gilets jaunes) na França continuam pelo quinto fim de semana seguido. Começaram como um movimento de base de descontentamento generalizado com o novo “eco-imposto” sobre o petróleo e o diesel, entendido como um ataque aos que vivem e trabalham fora das áreas metropolitanas, onde não há transporte público. Nas últimas semanas, o movimento cresceu somando demandas variadas e difusas, dentre as quais estão o Frexit (a saída da França da UE), a redução de impostos, o aumento das aposentadorias e o aumento do poder aquisitivo do francês comum.

Os coletes amarelos são um caso exemplar de populismo de esquerda, de explosão da ira popular em toda a sua inconsistência: menos impostos e mais dinheiro para a educação e saúde pública, combustíveis mais baratos e luta ecológica… Ainda que o novo eco-imposto tenha sido, obviamente, uma desculpa, ou melhor, um pretexto – não o “motivo real” dos protestos – é importante notar que o estopim tenha sido uma medida anti-aquecimento global. Não espanta que Trump tenha dado seu apoio entusiasmado aos coletes amarelos (até mesmo alucinando cantos de certos protestantes, “Nós queremos Trump!”),inclusive chamando atenção para que uma das demandas é pela saída da França do acordo de Paris.

O movimento dos coletes amarelos se encaixa na tradição específica da esquerda francesa de grandes protestos públicos contra as elites políticas (mais que as elites de negócios ou elites financeiras). Entretanto, ao contrário dos protestos de 68, os coletes amarelos são muito mais um movimento da França Profunda[1]. Sua revolta é contra as grandes áreas metropolitanas, o que significa que a sua orientação de esquerda é muito menos nítida. (Ambos Le Pen e Melanchon apoiam os protestos). Como esperado, os comentaristas se perguntam sobre qual força política se apropriará da energia da revolta, Le Pen ou a nova esquerda, com os puristas exigindo que o movimento permaneça distante da política tradicional.

Uma coisa deve ficar clara: em toda essa explosão de demandas e de expressão de insatisfação popular, fica evidente que os manifestantes não sabem exatamente o que querem. Eles não têm uma visão de sociedade que desejam, apenas uma mistura de demandas que são impossíveis de serem atendidas com o sistema, ainda que eles as dirijam ao sistema. Este fator é crucial: as suas demandas expressam interesses cujas bases estão dentro do próprio sistema atual.

Não se pode esquecer que eles estão endereçando essas demandas ao que há de melhor no sistema (político), o que, na França, quer dizer: Macron. Os protestos marcam o fim do sonho de Macron. Recordam o entusiasmo da nova esperança oferecida por Macron, não apenas de derrota da ameaça populista de direita, mas também de uma nova visão da identidade europeia progressista. que angariou o apoio de filósofos tão opostos quanto Habermas e Sloterdijk. Rememoram como toda crítica de esquerda a Macron, toda preocupação sobre os limites fatais do seu projeto, foi dispensada como apoio “objetivo” a Le Pen.

Hoje, com os correntes protestos na França, somos brutalmente confrontados com a triste verdade sobre o entusiasmo pró-Macron. O pronunciamento do presidente na TV, dia 10 de dezembro, foi uma performance miserável, metade compromisso, metade desculpa, que não convenceu ninguém e primou pela sua falta de visão. Macron pode ser o melhor do sistema atual, mas a sua política pertence ao jogo de coordenadas da democracia liberal da tecnocracia esclarecida.

Nós devemos, portanto, dar aos protestos um sim condicional – condicional na medida em que fique claro que o populismo de esquerda não oferece uma alternativa factível ao sistema. Quer dizer, imaginemos que, de alguma maneira, os protestos vençam, tomem o poder e ajam de acordo com as coordenadas do sistema vigente (como o Syriza fez na Grécia) – o que teria acontecido? Provavelmente algum tipo de catástrofe econômica. Isso não significa que nós precisamos, simplesmente, de um sistema socioeconômico diferente, um sistema capaz de atender às demandas dos protestantes: o processo de transformação radical daria vida igualmente a demandas e expectativas diferentes. Digamos, em relação aos custos dos combustíveis, o que é preciso não é apenas combustível barato, o verdadeiro objetivo é diminuir nossa dependência do petróleo por razões ecológicas, mudar não apenas nosso transporte, mas toda nossa forma de vida. O mesmo se aplica à demanda por menos impostos/melhores saúde e educação: todo o paradigma precisa ser mudado.

O mesmo vale para o nosso grande problema ético-político: como lidar com o fluxo de imigrantes? A solução não é apenas abrir as fronteiras a todos que quiserem entrar e fundamentar essa abertura na nossa culpa generalizada (“nossa colonização é nosso maior crime e teremos de pagar por ela eternamente”). Se continuarmos nesse nível, serviremos perfeitamente aos interesses daqueles que, no poder, fomentam o conflito entre os imigrantes e a classe trabalhadora local (que se sente ameaçada), reforçaremos a sua superioridade moral. (O instante em que se começa a pensar nessa direção, a esquerda politicamente correta imediatamente começa a berrar fascismo – vide os ataques furiosos a Angela Nagle por conta do seu excepcional ensaio “The Left Case against Open Borders”). Mais uma vez, a “contradição” entre os advogados das fronteiras abertas e os populistas anti-imigração é uma pseudo “contradição secundária” cuja função real é ofuscar a necessidade de mudança do sistema em si: todo o sistema econômico internacional que, na forma presente, dá origem aos refugiados.

Isso quer dizer que devemos esperar pacientemente pela grande mudança? Não, nós podemos começar imediatamente com medidas que pareçam modestas, mas que minam as bases do sistema vigente como uma toupeira paciente. Que tal uma revisão completa do nosso sistema financeiro que afete as regras de funcionamento do crédito e do investimento? Que tal impor novas regulações contrárias à exploração dos países de terceiro mundo de onde os refugiados vêm?

O velho lema de 68, Soyons realists, demandons l’impossible! [Sejamos realistas, demandemos o impossível] permanece totalmente relevante – sob a condição de que notemos a mudança a que deve ser submetido. Primeiro, há uma “demanda do impossível” no sentido de bombardear o sistema atual com demandas que ele não pode atender: fronteiras abertas, melhora da saúde, salários mais altos… É aqui que estamos hoje, no meio de uma provocação histérica de nossos mestres (experts tecnocratas). Essa provocação deve dar sequência a um passo-chave à frente: parar de demandar o impossível ao sistema e começar a demandar mudanças “impossíveis” do próprio sistema. Ainda que tais mudanças pareçam “impossíveis” (impensáveis dentro das coordenadas políticas do sistema), elas são claramente exigidas por nosso dilema ecológico e social e oferecem a única solução realista.

[1] La France profonde é uma expressão que denota a existência de aspectos “profundos” e profundamente “franceses” da cultura das cidades provinciais francesas, da vida das aldeias francesas e da cultura agrícola rural, que escapam às “ideologias dominantes” e à hegemonia de Paris.

https://www.independent.co.uk/voices/yellow-vest-protests-france-paris-gilets-jaunes-macron-fuel-tax-minimum-wage-populism-a8686586.html

Traduzido por Lucas Alberto Santos e
Bruno Inghes em dez/2018
pelo Grupo de Pesquisa Capital e Estado

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